Ontem assisti à Odisseia, de Christopher Nolan.

Desde então, tenho lido muitas críticas dizendo que Nolan “psicologizou” Homero, trocando o herói épico por um homem traumatizado, substituindo a busca pela glória por uma jornada de autoconhecimento. Concordo com a descrição, mas discordo de que isso seja uma falha. Nolan contou uma história antiga usando a antropologia do seu próprio tempo.

Foi aí que me lembrei de Philip Rieff e de seu conceito de “homem psicológico“. Em uma das frases mais célebres a resumir seu pensamento, ele sintetizou a grande virada da nossa cultura:

“O homem religioso nasceu para ser salvo; o homem psicológico nasce para ser satisfeito.”.

Ele nos diagnosticou como uma cultura que deixou de organizar a existência a partir de um dever transcendente para nos tornarmos obcecados pela gestão da nossa própria interioridade. A essa transição, ele deu o nome de “Cultura Terapêutica”.

Carl Trueman, em A Ascensão e Triunfo do Self Moderno, traz essa mudança para a vida comum ao imaginar alguém perguntando ao seu avô se ele encontrava satisfação no trabalho. A resposta provavelmente seria de estranhamento, ou talvez, ele sequer compreendesse a pergunta, justamente porque sua relação com o trabalho não era organizada em torno dos próprios sentimentos.

Não precisamos ir longe para comprovar isso: faça o seu próprio experimento. Pergunte aos seus pais ou avós por que escolheram a profissão que tiveram ou se o trabalho os fazia felizes. Há uma boa chance de a pergunta soar sem sentido. Masserá que eles eram indiferentes aos próprios sentimentos ou não gostariam de fazer outras coisas?

A resposta é simples: essa não era a lente através da qual organizavam a vida. Algumas perguntas pertencem a uma época e essa é uma das marcas mais discretas e profundas das mudanças culturais.

O trabalho servia para alimentar a família, colocar sapatos nos filhos, oferecer educação, cumprir um dever. A satisfação estava voltada para fora de si.

Trueman resume essa transformação com uma frase memorável:

“A diferença é gritante: para meu avô, a satisfação no trabalho era empírica, voltada para o exterior e sem relação com seu estado psicológico; para aqueles de minha geração e as subsequentes, a questão do sentimento é central.”

Acho que algo semelhante acontece quando assistimos à Odisseia. Muitos estão dizendo que Nolan errou, mas eu diria que ele adaptou e traduziu Homero para uma cultura que já não sabe fazer as mesmas perguntas que os gregos faziam.

No poema de Homero:

  • Odisseu engana Polifemo dizendo que seu nome é “Ninguém”, mas depois de escapar, cede à busca pela glória e revela seu verdadeiro nome aos gritos. É esse ato que leva Polifemo a invocar Poseidon contra ele. Ou seja, a tragédia nasce da necessidade de reconhecimento público.

Já no filme de Nolan:

  • A famosa cena do “Ninguém” é removida, Odisseu não revela seu nome. Em vez disso, ao escapar, volta e atira uma flecha no Ciclope já cegado, num gesto impulsivo que provoca ainda mais a ira de Polifemo e fornece um novo motivo para a perseguição de Poseidon.

Diversos críticos apontaram que Nolan substituiu o orgulho voltado para a fama por um gesto de raiva e impulso, coerente com a psicologia do personagem que ele constrói.

Em Nolan, o erro é um transbordamento emocional. Em Homero, o erro é querer que o mundo saiba quem você é. O erro não é psicológico. Odisseu não sofre porque não elaborou o trauma de guerra ou porque precisa reconciliar-se consigo mesmo. Ele mostrou um homem que, ao buscar a glória que sobreviveria à sua morte, rompeu uma ordem maior que si mesmo. Sua tragédia não nasce da interioridade, mas da relação com os deuses, com a honra e com o lugar que ocupa no cosmos.

Percebe a diferença?

Nós temos enorme dificuldade de ler esse tipo de erro.

Nolan altera justamente esse ponto quando, em vez de preservar um erro orientado pela glória, ele constrói um Odisseu cujo gesto decisivo nasce de um impulso emocional. A categoria é outra, a linguagem moral muda. E, curiosamente, nós entendemos imediatamente esse Odisseu porque ele é um de nós.

Hoje sabemos reconhecer um homem consumido pela culpa, pela raiva ou pelo trauma. Sabemos falar sobre feridas emocionais, identidade e sofrimento psíquico, mas já não compreendemos com a mesma facilidade um homem disposto a colocar tudo em risco para que seu nome fosse lembrado pelas gerações futuras.

Essa gramática, do homem psicológico, nós conseguimos compreender. Mas ao fazer isso, outra coisa se perde: como público contemporâneo já não possuímos as categorias culturais para sentir o peso dramático do erro homérico, pois essa lógica deixou de organizar nossa imaginação moral.

A questão, portanto, não é se Nolan foi fiel ou infiel a Homero. Ele não mudou apenas a história, o que mudou, de fato, foi o tipo de homem para quem a história é contada. E, quando muda a antropologia, muda também aquilo que consideramos uma tragédia.

Enquanto ele fez um brilhante retrato da nossa própria cultura, precisamos nos perguntar: o que aconteceu conosco para que o Odisseu de Homero já não nos pareça familiar? O que deixamos de enxergar quando toda desordem humana passa a ser interpretada apenas como sofrimento interior, e não também como uma questão de adoração, de ordem e de desordem do coração? Será que ampliamos nossa compreensão da condição humana ou apenas trocamos uma antropologia por outra? Quais aspectos da condição humana deixam de ser inteligíveis quando o “homem psicológico” se torna a única forma de interpretar uma vida?

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Sobre

Psicóloga, atuando com a Terapia de Aceitação e Compromisso em consultório particular. Passei os últimos dez anos estudando e trabalhando com pessoas, engajada em como ajudá-las em seu sofrimento humano e capacitá-las para uma vida baseada em valores.

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