A gente até ouve falar disso, mas viver é outra coisa. Quando os filhos chegam, algo muito concreto acontece e ninguém pode se preparar totalmente para isso. Tudo vai orbitando em torno daquele ser humaninho que está se desenvolvendo e, justamente por isso, sobra muito menos energia direcionada um ao outro. Toda a atenção é apontada para frente e quase nenhuma voltando. É algo natural, bonito e necessário.
O amor vai mudando de lugar.
Ele passa a morar no jeito que um pergunta ao outro se o bebê já comeu. No copo d’água deixado na cabeceira. No revezamento silencioso de quem levanta e “segura a onda”. Na mensagem prática no meio do dia.
O amor vai virando logística.
Ele vai deixando de ser dito e passa a ser feito. Precisa ser assim. São acordos implícitos de pura sobrevivência. Mas essa crônica é apenas sobre quem está lá. Casais que estão, de fato, presentes e implicados.
Os mesmos que estão imersos nas invenções culturais que nos preparam mal para a realidade da vida (inclusive da vida à dois). Quem não acreditou na ideia de que casar é encontrar uma fonte de sentimentos agradáveis e quis fazer uma hospedaria como essa virar lar? Como se o amor fosse um estado contínuo, e não um movimento vivo.
E aqui vem uma parte importante: realidade ajuda muito o casamento. As expectativas precisam ser reajustadas. E é tipo no início-meio-e-fim. Ajuda perceber que o amor não é feito só de sentir, mas de ficar mesmo quando não se sente. É presença com cansaço, muitas vezes. É compromisso sem garantia de leveza, sem garantia de nada.
A verdade é que essa crônica também é para os casais que continuam. Para os que tem filhos pequenos e vivem os malabarismos desse tempo. Para os que tem filhos adolescentes e vivem as tensões das quedas de braço. Para os que veem os filhos saindo de casa e vivem um silêncio novo.
Qualquer que seja a fase que vocês estiverem, sim, as fantasias caem todas por terra. As responsabilidades não pedem licença. E o casamento? Ah… ele tem um jeito muito próprio de nos tornar adultos. Ali nos desencontros, nas versões de nós mesmos que não existiam quando tudo começou, nos conflitos repetitivos, na saudade de quando era mais fácil.
E por falar em saudade, ela não aponta apenas para o que acabou, mas também para o que ainda importa. Então, a gente pode olhar com ela, sem tentar consertar, sem tentar voltar no tempo. A gente pode ouvir ela dizendo: “isso vale! isso vale muito!” e, então, voltar para o agora. Pra amar agora, sem a luta eterna para repetir o que existia antes. Pra perceber o que ainda existe e escolher, dentro do possível, cuidar disso.
O amor vai amadurecendo.
Ele deixa de depender do tempo ideal e passa a caber no tempo que existe. Ele não bate o pé quando as coisas não correspondem nem fica ameaçando ir embora. Simplesmente porque o outro não existe para sustentar nossos estados emocionais, mas para compartilhar uma vida conosco. E a gente só faz isso com intenção e sacrifício.
Viver é outra coisa, mas a gente até ouve falar disso: um par não é aquele que nunca se perde, mas aquele que acredita e aposta na possibilidade de se reencontrar. É como disse alguém que admiro muito:
“o casamento é o pequeno Big Bang de um pequeno mundinho de dois, que às vezes viram três, quatro, cinco… Mas quem tem família sabe que é desse pequeno começo que pode nascer um verdadeiro universo.”
E universos não se sustentam por acaso, mas pela escolha contínua de permanecer.




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