Meu corpo anda como quem ainda corre.
Mesmo quando o dia termina, mesmo quando tudo ao redor já silenciou, algo em mim continua em alerta — como se a rotina tivesse ensinado que parar é um erro. Com o tempo, comecei a perceber isso. E junto, veio uma nova percepção: meu corpo também precisa ser ensinado. Precisa ser cuidado, conduzido.
Curiosamente, foi no processo de ensinar meu filho a dormir que tudo isso começou a fazer mais sentido. Ele quer brincar, fala alto suas palavrinhas novas, jura que ainda tem energia. Isso depois de um dia inteiro que começou às cinco da manhã — sim, temos um bebê matutino por aqui —, em que descobriu e explorou um monte de coisa (e olha… isso gasta muita energia). Um dia em que também riu, chorou, fez suas sonecas (ou não), e agora já são quase sete da noite. Estou falando: um dia bem v-i-v-i-d-o.
Os olhinhos começam a pesar, os bracinhos perdem força, mas ele ainda resiste e, então, vem os pequenos “surtos” de impaciência, que denunciam: ele está exausto. Só que ele ainda não sabe nomear esse cansaço. Às vezes, precisa que eu veja por ele.
Então eu diminuo as luzes, abaixo o tom da voz, conto historinhas e ofereço o colo. Crio o contexto para o descanso chegar. Ele precisa de ajuda para sair desse modo “corrida”. E eu também.
Meu corpo anda como quem ainda corre, mas isso não é uma experiência apenas minha. Não é só sobre mim. Essa frase aparece o tempo todo na clínica, com outras palavras, a partir de outras vozes.
“Não consigo desligar.”
“Mesmo parada, estou acelerada.”
“Parece que estou sempre pronta pra reagir a alguma coisa.”
A gente vive em um tempo que, de forma muito sutil (ou nem tanto), nos diz que é perigoso descansar. Como se parar fosse uma ameaça. Como se relaxar fosse irresponsável. E assim, o corpo vai aprendendo a se manter em estado de vigília constante: alerta, tenso, sempre pronto.
Pra algumas pessoas, essa vigília é a forma que o corpo encontrou pra sobreviver: foi útil em momentos de violência, abandono, perdas, pressão contínua. Pra outras, é o efeito acumulado de uma rotina que nunca permite o descanso sem culpa. E, pra muitas mães, como eu, a vigília vira “instinto”. Na maternidade, a privação de sono foi e ainda é meu maior calo. Dormir virou um “luxo instável”. Mas enquanto o embalo ajuda meu filho a adormecer, algo em mim também desacelera.
Ensiná-lo a descansar tem sido, aos poucos, o jeito mais bonito de aprender que eu também posso e preciso. E quando ele finalmente adormece, percebo que também me embalei no mesmo ritmo.
A verdade é que reaprender o descanso, nesse contexto, tem sido quase como reeducar o corpo. Mostrar a ele que já não precisa correr nem vigiar o tempo todo. Agora, é preciso reaprender o caminho do repouso. Lembrar que também existe vida no intervalo entre um passo e outro. Lembrar que é sobre escolher estar inteira, mesmo quando tudo pede pressa. E que descansar também é um jeito de cuidar.
E você? Como anda o ritmo do seu corpo?
Ele sabe descansar ou ainda corre, mesmo quando tudo ao redor já parou?
Que sinais de cansaço você tem ignorado?
A vigília virou hábito ou defesa?
O que te impede de parar?
E o que você poderia começar a oferecer ao seu corpo, hoje, como convite ao descanso?
Desacelerar, pra mim, ganhou outro sentido. Não é mais sobre pausas silenciosas ou longas, mas ainda é possível. Não como antes, mas de um jeito novo.




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