Relacionamentos amorosos são como terrenos cheios de curvas, com trechos ensolarados e outros cobertos de sombras. Neles, a gente se depara com diversos pensamentos girando em torno de uma dúvida: aceitar ou mudar?
Na terapia, onde as palavras ganham contornos, essas questões aparecem com frequência, mas somos convidados a considerar as duas coisas ao mesmo tempo: e se fosse sobre aceitar e mudar?
Porque, ao contrário do que a gente imagina, aceitar não é se conformar. Não é jogar a toalha, cruzar os braços e dizer: “é isso, não tem jeito.” Aceitar é olhar para a realidade de frente, sem desviar os olhos, sem se encolher.
E, ao fazer isso, a gente inevitavelmente se depara com as imperfeições — as nossas e as do outro. Afinal, ninguém é perfeito. Nem você, nem eu, nem aquele parceiro que deixa a louça na pia ou que nunca entende direito o que você quis dizer com aquela frase no meio da discussão. Somos todos feitos de pedaços, de lacunas, de desejos que não se encaixam como num quebra-cabeça. E, ainda assim, insistimos em buscar alguém que nos complete totalmente, tipo filme com trilha sonora e pôr do sol no final. Mas a vida não é assim. Relacionamentos, menos ainda.
Pense bem: quantas vezes você já se pegou lutando contra o que o outro é, como se ele fosse um rascunho a ser corrigido? Quantas vezes quis apagar uma mania, ajustar uma atitude, moldar o outro para que se encaixasse no seu ideal de “relacionamento bem-sucedido”?
É fácil cair nessa armadilha. A gente se apaixona pela ideia do amor, mais do que pela pessoa de carne e osso que está ali. Achamos que amamos, mas, na verdade, estamos apaixonados pela história que escrevemos na cabeça, pelos nossos sonhos tão bem desenhados, onde o outro é o espelho dos nossos desejos, um personagem seguindo o roteiro que criamos.
Mas… então quer dizer que tudo deve ser aceito, e paramos por aí?
Não, de jeito nenhum.
Outro dia, no final de uma daquelas sessões que começam com um desabafo leve e terminam com um nó na garganta, ouvi uma pergunta que ficou me rondando: “ok, Luana… mas até que ponto eu estou aceitando meu parceiro como ele é, de forma genuína e apreciativa, ou estou caindo na armadilha da indiferença, da desesperança… ou daquele ‘contentamento resignado’ que só está disfarçando a insatisfação?”
Não é o tipo de pergunta que chega de repente. Ela costuma vir depois de algum tempo de reflexão, mesmo que ainda confusa, meio atravessada, mas carregando um peso que já vinha se acumulando em silêncio. Ela surge em contextos muito específicos. Às vezes, vem acompanhada de um café esfriando na mesa, de um silêncio que pesa mais que palavras ou daquele instante em que se percebe a própria desilusão.
Aceitar não é se conformar. Aceitar é olhar para a realidade de frente.
Pensando nisso, me lembrei da metáfora do painel do carro, que o Steven Hayes usa. Ele diz que nossos pensamentos, sentimentos e sensações são como as luzes que se acendem no painel, nos informando quando o motor está aquecendo demais, quando o combustível está acabando, quando alguma coisa precisa de atenção. Ignorar o painel, cobrir as luzes com uma fita ou, pior ainda, largar o volante porque algo disparou, nada disso resolve. Nem na estrada, nem na vida a dois. Pelo contrário: largar o volante, justamente quando os sinais de alerta aparecem, só aumenta o risco de um acidente maior.
Enquanto casais, é um desafio olhar para o painel. Reconhecer o que está sendo sinalizado. E então, com as mãos firmes no volante, decidir por onde seguir. Porque aceitar o outro, de verdade, é também aceitar o que sentimos ao olhar para ele. É ser honesto o suficiente para ouvir o próprio desconforto e generoso o bastante para escolher, todos os dias, os caminhos que ampliem, e não encurtem, a história que estamos tentando construir juntos.
Portanto, aceitação não é aquele “engolir seco” das noites em que a vontade era discutir, mas a escolha foi calar pra evitar mais desgaste. Não é se convencer, dia após dia, de que “é assim mesmo”, enquanto vai acumulando pequenas frustrações como quem empilha roupas num canto do armário, esperando um dia resolver. Aceitar é dar espaço para os próprios sentimentos. É considerar o que dói, o que irrita, o que gera distância. É escutar as emoções — não para reagir impulsivamente, nem para sair corrigindo o outro a todo custo — mas para escolher, com mais lucidez, o que fazer com aquilo.
De fato, há coisas que são marcas de uma pessoa, mas há outras como o costume de evitar conversas difíceis e deixá-las se acumularem como poeira, ou a tendência de fazer planos sem considerar o outro, ou ainda o hábito de críticas constantes, apontando falhas em cada pequeno gesto, que pedem um diálogo aberto, um convite à mudança mútua. Sendo assim, aceitação e mudança não são opostas. Elas andam de mãos dadas, como velhos amigos que sabem quando dar espaço um ao outro. Aceitar não é dizer que tudo está perfeito, como se cada detalhe do outro fosse intocável. Definitivamente.
O amor, no entanto, é o que faz a diferença. Foi com Tim Keller que aprendi que a verdade deve ser bem-vinda e que precisamos ser capazes de ouvir e suportá-la, se quisermos nos tornar pessoas (e casais) melhores. Mas essa verdade, quando desconectada do amor, não ajuda e torna-se destrutiva. Porque amar é reconhecer que o outro é um universo à parte, com seus próprios mapas, suas próprias tempestades. Amar não é absorver o outro, nem se deixar ser absorvido por ele. Amar é estar em uma relação e aprender a conviver com o que é distinto em nós. É caminhar ao lado de alguém que, por mais próximo que esteja, nunca será uma extensão de você.
Então, você vai dançar com quem pisa no seu pé de vez em quando. Você pode até tentar ensinar o passo, mas, às vezes, vai ser melhor simplesmente rir e continuar dançando, mesmo com os tropeços. Às vezes, o que parece um defeito no outro é só uma parte dele que não combina com o seu roteiro. E tudo bem. Porque, no final das contas, estar em uma relação é também um convite para estapear o nosso individualismo. É olhar para o rosto de quem está ao nosso lado e decidir que, apesar das incompletudes, vale a pena ficar. Vale a pena tentar.
Da próxima vez, experimente parar por um instante. Respire. Olhe para a pessoa ao seu lado, não como um projeto a ser concluído, mas como alguém que, assim como você, está tentando navegar por esse mar de imperfeições. Talvez a resposta não esteja em mudar tudo, mas em encontrar beleza no que já é: real, humano, vivo.




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