Espera-se que a mãe de hoje seja sempre presente, equilibrada, produtiva (multitarefa e mega eficiente), leve, saudável (leia-se magra) e, claro, bem resolvida emocionalmente (“terapeutizada“). Virtudes desejáveis, é verdade. Mas quando viram exigência permanente, pesam mais do que sustentam e não temos mais vagas para mães heroínas.

Amor não é desempenho.
Cuidado não é sinônimo de exaustão.
Presença não é perfeição
— e também não é só “tempo de qualidade”,
mas esse último é assunto pra depois.

E, convenhamos: o tal sucesso, na maternidade ou fora dela, pode ser muito questionável.

O espetáculo da maternidade perfeita ainda lota plateias. Tá todo mundo aplaudindo esse papel idealizado da mãe heroína, ainda que nem perceba. Mas aqui vai a verdade: não há mais vagas nesse elenco. Já estão todas preenchidas por expectativas irreais, recortes de Instagram e comparações silenciosas. E mesmo quem tenta atuar nesse palco, cedo ou tarde, desaba nos bastidores. A maternidade real não precisa de plateia. Precisa de espaço para falhar, aprender, repetir, amar de novo.

O mercado da “mãe ideal” é estreito, seletivo e mentiroso. E, se você tentar se encaixar, há grandes chances de sucumbir ao cansaço, à culpa e ao sentimento de insuficiência. Como demonstram os quadros alarmantes de exaustão materna, depressão pós-parto, solidão e ansiedade, essa corrida para ser uma mãe “fora da curva” está nos adoecendo.

A verdade é que a esmagadora maioria das mães será comum. Mães que amam e falham. Que perdem a paciência, depois pedem perdão. Que não tem tempo ou dinheiro para festas temática$, mas conhecem o amiguinho preferido do filho. Mães que não tem resposta pra tudo, mas tem colo. Mães que trabalham fora ou dentro de casa, e se sentem divididas, sobrecarregadas, ou ambas. Mães que se descobrem no processo, tropeçam e recomeçam. Gente de carne, osso, lágrima e café frio.

E isso não é pouco. Isso é sagrado.

O anonimato e a singeleza da maternidade cotidiana tem um valor inestimável. A amamentação/mamadeira silenciosa na madrugada. O “bom dia” de sono e abraço apertado. Os improvisos com amor. As frutinhas escolhidas para o pratinho ou lancheira. Os dentinhos que trazem dias difíceis e também formam um sorrisinho novo.

A repetição desses ritos ordinários constrói algo que a cultura da performance não pode oferecer: pertencimento, vínculo e presença real.

Talvez seja hora de redescobrirmos a beleza de ser uma mãe comum. Não como fracasso, mas como resistência. Resistência à tirania da perfeição. À cultura da comparação. À autenticidade instagramável.

Vamos abraçar a vocação de ser uma mãe humana?

Isso exigirá sensibilidade e espiritualidade. Exigirá coragem para dizer “não” ao ideal inalcançável e “sim” ao filho que te chama — com a mão suja de tinta ou durante o caos espalhado pela casa. Exigirá redescobrir a gratidão, a modéstia, a compaixão, o descanso – e a repetição que sustenta o amor.

A vida com filhos não precisa ser extraordinária para ser plena.
Talvez o alívio comece por aqui: reconhecer que ser mãe não é ser heroína.
É ser gente. Gente que ama, cuida e confia na Graça que preenche os vazios do nosso “não dou conta”.

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Sobre

Psicóloga, atuando com a Terapia de Aceitação e Compromisso em consultório particular. Passei os últimos dez anos estudando e trabalhando com pessoas, engajada em como ajudá-las em seu sofrimento humano e capacitá-las para uma vida baseada em valores.

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