A foto do café na mesa de trabalho, a legenda sobre “energia renovada” e a ilusão reconfortante de que estamos no controle.
Saúde? Depois a gente vê. O importante é seguir funcionando. Ou pelo menos parecer.
Como se não tivéssemos limites e impossibilidades, percorremos um caminho de heroísmo e, nessa missão cega e devastadora, não aceitamos as contrariedades que a nossa natureza nos impõe. A exaustão não é status, é insustentável. Ninguém sai ileso ou sem prejuízos.
A celebração e aceitação da exaustão e da carga excessiva de trabalho é algo tão prevalente na nossa cultura que, muitas vezes, nos vemos pressionados a seguir esse modelo de sucesso baseado na produtividade incessante, como se descansar fosse sinal de fraqueza ou falta de comprometimento. Por trás disso, estamos elevando tudo isso à posição central de nossa vida, acreditando que, se alcançarmos ou mantivermos aquilo, teremos segurança, valor e significado. O problema é que, muitas vezes, colocamos o trabalho, o sucesso e a produtividade nesse lugar – e, sem perceber, passamos a servi-los com devoção cega, sacrificando nossa saúde, nossos relacionamentos e até nossa paz. Essa é uma estrada sombria que leva à destruição de nós mesmos. Mas e se houvesse outra forma de produzir?
Na vida real ninguém está equilibrando todos os pratinhos. Não temos muitas garantias, temos pouco controle, nos esbarramos com a insegurança, a dúvida, o medo e o cansaço. Somos de carne e osso.
“Acatar” a nossa condição humana nos permite saber até onde podemos ir. Na verdade, somos anti-heróis, mas estamos indo em direção ao abismo na tentativa de sustentar todo esse projeto de onipotência.
Todos nós recebemos um dia de cada vez e isso é dádiva. Precisamos ser capazes de trabalhar e produzir, mas também de fazer pausas e descansar. Por isso, buscar uma disciplina do descanso é tão importante quanto uma disciplina do trabalho. Ambas estão relacionadas, ainda que não seja tão consciente e nítido para nós no cotidiano.
Eu, particularmente, já me culpei muito por não produzir como gostaria, ter estudado como deveria, pensando que poderia ter feito melhor. Quantas vezes pensei (e ainda penso) se tivesse a “cabeça” que tenho hoje como poderia ser diferente em inúmeros aspectos, quais escolhas e outros caminhos poderiam ter sido trilhados. Aquela luta interminável entre aceitar o que foi e é possível, exigir de mim mesma sem perder de vista meus próprios limites e não me acomodar. São pensamentos comuns, você provavelmente já experimentou isso também.
Hoje, por exemplo, é meu tempo de descansar. Particularmente, minha mente está bastante ocupada com as coisas que tenho que fazer. Então escrevo para lembrar a mim mesma (e se fizer sentido, para você também) que é trabalhando em paz que conseguimos nosso pão, não como escravos, mas como livres.
Nem tudo depende do que fazemos, embora seja necessário assumir a parte que nos cabe.
Quando colocamos o trabalho e a produtividade como hiperbens — ou seja, como valores absolutos que organizam toda a nossa identidade — acabamos subordinando tudo o mais a essa lógica: relações, saúde, tempo, descanso. E, sem perceber, deixamos de existir para além do que produzimos.
E ainda: uma vida pautada apenas no esforço próprio inevitavelmente levará ao esgotamento — e aqueles que caminham conosco sentirão esse peso. No fim das contas, não somos referência pelo volume do que realizamos, mas pela maneira como vivemos. Quando escolhemos a confiança e a entrega, nosso impacto se torna muito maior do que aquele impulsionado pela exaustão.
Existe um caminho para produzir sem se perder. Que as nossas escolhas não nos aprisionem, mas nos sustentem!





Deixe um comentário